Estou ensaiando há um tempão tentando colocar em palavras algumas coisas que estão passando pela minha cabeça. Acho que vou jogar tudo mesmo, sem nenhuma ordem, porque é assim que as coisas estão aqui dentro.
Você, que mora em grandes capitais, que pôde frequentar escola particular, fazer uma faculdade, viajar pro exterior, usar roupa de marca, começar a trabalhar quando quis e não por obrigação, que recebeu ajuda dos pais pra fazer faculdade, quando começou a morar sozinho(a), quando comprou seu primeiro imóvel, que sempre teve acesso a cinema, balada, livros, que sempre teve plano de saúde, etc. Você já parou pra pensar que vive numa bolha?
Uma bolha de privilégios, restrita a uma pequena parte da população desse país. Se além de tudo que eu citei lá em cima você é branco(a), sua bolha de privilégios é ainda mais exclusiva. Uma bolha VIP. Só está nela quem pode, não quem quer.
Dentro dessa bolha existe uma bela de uma segurança. Eu sei, vivemos numa sociedade violenta. Mas, a segurança a que me refiro é diferente. É uma segurança gerada por todos os privilégios de que você usufrui. Ela pode ser até inconsciente, mas está lá. É a segurança de saber que tem dinheiro para viver confortavelmente. A segurança de saber que tem mais chances de arrumar um bom emprego. De se permitir comprar coisas supérfluas. A segurança de poder ter uma casa. De poder comer o que tem vontade. A segurança de ser branco(a).
A maioria da população brasileira não vive nessa bolha. É gente que não teve muita oportunidade na vida. Gente que não pôde estudar em escola boa. Gente que não pode vestir, ou comer, o que quer. Que teve de começar a trabalhar por obrigação, ainda na infância. Que não tem luz elétrica nem água encanada em casa. Gente pobre. Gente misturada, gente negra, nordestina, parda, índia. Gente ignorante. Povão. Gente feia.
Peguei pesado? Mas é dessa maneira que muitos que vivem dentro da bolha se referem a quem vive fora dela. Gente feia.
Gente que você pode até imaginar, de dentro da sua bolha, como realmente vive. Mas que, na verdade, não faz nem ideia de como é estar dentro da pele.
Como essa bolha de privilégios que advém de “raça” e oportunidades, existem outras bolhas de privilégios. Aquelas em que vivem as pessoas que se encaixam em padrões estéticos, sociais, sexuais. Os privilegiados são magros, bonitos, se casam e constituem famílias, são heterossexuais, não usam drogas, e possuem uma série de outras características e comportamentos que os permitem ter certos privilégios em comparação a outras pessoas.
Ultimamente, tem gente (privilegiada) que começou a reclamar que é atacada por ser privilegiada. Que não tem culpa se teve oportunidades na vida, se nasceu em família com condições, se teve acesso a uma boa educação, saúde, se nasceu branca e com o cabelo naturalmente liso, se é magra, se gosta de pessoas do sexo oposto.
A questão é que ninguém com bom senso critica o privilégio. O que é criticado são os direitos. Porque a maioria desses privilégios na realidade são direitos. Direitos a que todas as pessoas deveriam ter acesso. A gente chama de privilégio porque a nossa sociedade é tão podre, materialista, racista, superficial, preconceituosa e ignorante, que garante direitos em função de cor, dinheiro, sexo, origem, aparência, sexualidade e diversos outros fatores.
Não precisa sentir culpa por ser quem você é. Por ter tido acesso aos seus direitos como cidadão. E, acima deles, ter tido a oportunidade de ter ainda mais. Mas, procure olhar para fora da sua bolha. Procure ter empatia. Procure entender que existem milhões de pessoas, seres humanos como você, que não tiveram oportunidades.
E não, não é pra sair distribuindo as suas “riquezas” por obrigação. É só olhar mesmo. Ver o outro. Tentar compreender como é ser alguém que vive à margem da sociedade. Tentar se colocar no lugar do preto. Do pobre. Do homossexual. De pessoas que vivem com medo de ser quem elas são. Que vivem com medo de não conseguir pagar o aluguel. Que vivem com medo de que seu salário não dê pra comprar comida. Que vivem com medo de morrer.
Não precisa sentir culpa. Não precisa dar o que você tem. Não precisa mover um dedo. Só use a imaginação e se coloque no lugar, nem que seja por alguns segundos. Olhe para fora da sua bolha.
Talvez, então, você consiga compreender que quem mora fora da bolha luta para conquistar a sua própria. Não pra estourar a de quem já tem. E que existe sim, a necessidade de lutar por uma bolha. Pode parecer que esse pessoal queira na verdade uma bolha de privilégios. Mas, se você exercer a sua empatia, vai perceber que na real é uma bolha de direitos.
O que as pessoas querem é também poder sentir a mesma segurança que você sente dentro de uma bolha. Uma bolha onde eles tenham seus direitos assegurados, e que possam conquistar privilégios. Essa bolha não vai destruir a sua, melhor reforçar.
Sabe o que é mais legal? Pode ser que, um dia, não haja a necessidade de existirem bolhas, pelo menos as de direitos. Quem sabe.
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