dezembro 2010


Meu Natal não foi feliz, assim como o Natal de milhões de pessoas por aí.

Apesar de todo o esforço da mídia, das grandes empresas, da sociedade, das pessoas à minha volta, não rolou.

O Ano Novo não será diferente.

É a primeira vez na minha vida que isso acontece. Passar por esses dias em luto pela morte de um amigo, e com pessoas da família doentes.

Engraçado que, pelo fato de você ser praticamente obrigado a ser feliz nesses dias, parece que as coisas ruins que acontecem têm uma carga, uma dimensão muito maior do que teriam em outras épocas do ano.

Hoje eu poderia ter ido viajar novamente para me encontrar com a minha nagyi fraca e doente, igual ou pior do que estava no Natal. Mas não fui.

Não fui não por egoísmo, pois estou aqui em casa sozinha e vou ficar sozinha até a noite, quando um casal de amigos vem me buscar pra me fazer companhia. Não sei porque não fui. Acho que o Natal foi triste e revoltante demais pra mim.

Percebi que a culpa meio que começou a querer se instalar dentro de mim por não estar me divertindo e sendo feliz nesses dias. Tratei de acabar com ela.

Percebi que a raiva egoísta também tentou dar as caras aqui dentro, pelo fato de saber que um monte de gente está se divertindo e eu não. E novamente tratei de fazer com que ela desaparecesse.

Esses dias “especiais” são dias como quaisquer outros. E as tragédias, os acidentes, as doenças, não escolhem hora para surgir. Infelizmente surgiram por esses dias. E não tenho obrigação nenhuma de dar à essa sociedade de padrões materialistas e fúteis o que ela espera de mim.

Nem nesses dias, nem em quaisquer outros.

Vou chorar, vou deixar a tristeza passar por mim o tempo que for necessário. Não importa que dia seja esse.

k

O desejo por momentos de descontração urra no íntimo do seu ser. Dias e dias fazendo horas extras, trabalho e mais trabalho encalacrado na mente, sem tempo nem forças para outras ideias, ideais, pessoas, nada.

Então você sai de casa feliz, contente e cantarolante, porque durante as próximas horas estará entre amigos e colegas e desconhecidos, todos com o mesmo objetivo que é também o seu: Esquecer os dias e noites e madrugadas de labuta intensa.

Você chega ao local, e ainda sóbrio não faz o social com as pessoas devidamente, por ser tímido. Leva uma pequena bronca. Avista um copo com qualquer coisa alcoólica dentro, o primeiro de muitos, e toma posse dele. Depois de um tempo tudo fica mais leve, mais permissivo. Abraços, beijinhos nos amigos (inicialmente apenas nos amigos), dancinhas, palavrões e muitas risadas de doer a barriga. E então você decide que ainda não está bom. Não sei por qual razão estranha a gente não se contenta em apenas sair um pouco da realidade.

Não. A gente quer ir pra outra dimensão.

Só que a dimensão, no caso, é incerta e imprevisível. E começam as merdas. Ai caralho.Você, pessoa de bem, está falando, falando, fazendo, enquanto seu cérebro lá loooonge pede pra parar, mas aí já é tarde: O estrago está sendo feitooooooooo!!!!! OOEE LOMBARDI!!!
QUE COMECEM OS JOGOS ÉBRIOS HUMORÍSTICOS DEPRAVADOS INOMINÁVEIS!
Gente cambaleando, sorriso besta na cara e olhos semicerrados, brindando com o chefe a seguinte frase: MEU CUUUU!!! Sem controle, fotos semi-pornográficas, sambando quando não se sabe sambar e se odeia pagode, piscando pro vocalista e depois finalizando-o, descendo e subindo freneticamente pra fumar 1,2,3,4,10 cigarros, flertando com homens comprometidos, pulando e gritando como se não houvesse amanhã, rasgando a tanga na pista ao som de música eletrônica com desconhecidos que lhe oferecem bebidas e perguntam seu nome já com a mão na sua cintura e a boca encostada na sua, risadas histéricas, brincadeiras de mau gosto, xavecos furados em colegas de trabalho porque naquele momento não existe futuro (isto é, segunda-feira), procurando amigas estragadas pela balada com medo de que percam a integridade física, cabelos desgrenhados. De repente você se lembra de quem é e tenta puxar um papo-cabeça só pra mostrar que não sofre de insanidade temporária e tem dignidade, mas é tarde demais: Termina em merda. Tudo vai ficando meio nebuloso, flutuante e psicodélico. Ui, que delícia.

Você sente que está acordando. Toma um susto ao verificar que se encontra em sua cama, mas que não tem a mínima ideia de como foi parar lá. As lembranças da noite surgem em sua mente e você começa a dar muitas risadas sozinho, até lembrar das merdas. Aí vai murchando, murchando, dizendo “ai caralho” de 5 em 5 minutos, imaginado o que irão dizer na segunda-feira, imaginando todo um jeito de entrar na empresa sem ser visto e imediatamente ficando frustrado porque esta alternativa é fisicamente impossível. Manda email para os amigos perguntando o que fez e como estava, e as respostas são variadas, desde: “Nossa, você foi?”, “Cara, ninguém estava te reconhecendo”, “Não lembro”, “Eu te amooooo você é muuuuuito engraçadaaaaa meeeeuuuuuuu” (esta última de alguém cujos efeitos do álcool demoram mais a passar – ou então porque é doido mesmo).

Resta então aproveitar o dia suavemente. Afinal, seu objetivo foi cumprido. Só mesmo uma viagem até outra dimensão, para os confins do Universo Mental conhecido, para fazer a gente esquecer da pressão, das horas extras, do trabalho trabalho trabalho. Agora você terá outras coisas com o que preencher a mente, olha que tudo. E, caso sinta-se culpado por serem coisas vazias e fúteis, assim que a ressaca passar leia Sartre, Nietzsche, Kafka, algo que o faça sentir-se mais como um ser humano de inteligência razoável e bom senso.

Não se preocupe, amiguinho, se você subiu na mesa pra dançar; se você pegou a pessoa mais feia da balada; se você falou merdas pra várias pessoas; se você xavecou a mulher do chefe. Daqui a alguns meses você vai lembrar disso tudo e RIIIIIIIIRRRRRRR.

k