janeiro 2009


Será que existe, neste mundo tão imenso, alguém que tenha total controle sobre si mesmo? Alguém que consiga direcionar suas emoções quando e para quem queira?

Controlar-se significa controlar a própria vida, e eu imagino que a vida de alguém assim deva ser perfeita, sem erros, sem decepções, sem fraquezas. Situações e momentos ruins são enfrentados com equilíbrio.
Independente de existir alguém assim por aí, penso que é para isso que nascemos, para evoluir, para fazer dos erros e das coisas ruins, através da transformação do aprendizado, nossos alicerces em que baseamos a construção do auto controle, do equilíbrio interno, da sabedoria.

* * *

Existem pessoas que constroem seus prédios com materiais fracos. Quando eles mostram que não suportarão muito tempo, essas pessoas procuram remendá-los de todas as formas. Dedicam tempo e energia remendando, até que os prédios se tornam figuras disformes e sem sentido.
E existem aquelas outras pessoas que derrubam os prédios fracos até construirem o perfeito, o bloco maciço e forte, que reflete sabedoria e bom senso, e que nunca sucumbirá.

Estou derrubando mais outro fraco, com uma dorzinha mas com prazer, porque sei que estou rumando para o meu prédio perfeito.

k

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Os dias passam e as pessoas também. E conforme eles passam, a gente fica. Às vezes a gente fica bem. Às vezes a gente fica mal. Mas a gente nunca fica igual depois dos dias e das pessoas que passam. Das palavras que a gente ouve, e das que não são ditas. Dos gestos, dos momentos.
Hoje o que ficou é ruim. E amanhã vai passar, e eu não serei mais a mesma. Não sou a mesma de hoje de manhã.
Dias e pessoas passam. Graças a Deus.

k

Se houvesse um jeito de matar sem tirar sangue… quer dizer, matar sem matar literalmente. Apenas extinguir, mas não simplesmente fazer sumir com um estalo de dedos, extinguir com emoção, matar com energia de quem, por exemplo, esfaqueia ou esgana. E que a energia se dissipasse juntamente com o corpo sem vida, e que não houvesse arrependimento nem culpa, só o poder livre. O poder de quem se livrou de um peso medíocre, sujo, falso e podre. Ouvir o seu último suspiro e sorrir.

k

Alta noite já se ia, ninguém na estrada andava. A estrada vazia instaura a hora deserta

No caminho que ninguém caminha, e a vida insinua sem ser descoberta

Alta noite já se ia, pulsa a veia, a víscera, a terra, o chão

Ninguém com os pés na água. Na estrada a vida pulsa por qualquer secreção

Nenhuma pessoa sozinha ia… Halo de vida que exala das pequenas mortes, sexo, ascese, acaso, sorte

Nenhuma pessoa vinha, necessidade, desejo, esperança, perda

Nem a manhãzinha, nem a madrugada, explodirá a vida em sangue, suor e esperma

Nem a estrela-guia, nem a estrela d’alva e por algum instante ser apenas falta

Alta noite já se ia, ninguém na estrada andava. Ser a hora mais deserta que habita em nós

No caminho que ninguém caminha, ser nada, desamparo de qualquer exílio

Alta noite já se ia ser a estrada que vazia reverbere a voz da vida

Ninguém com os pés na água e pulse toda a vida pulse toda

Nenhuma pessoa sozinha ia, voa da estrada e desafia a queda, desafia a queda

Nenhuma pessoa vinha voa da estrada, pra não mais pousar

Marisa Monte+Lobão

 

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Houve um tempo em que eu achava que você sempre tinha sido adulta e minha mãe. Eu achava que você sabia de tudo, apesar de muitas vezes não concordar com você. Você era a minha guia nesse mundo, você era super e eu não era nada sem você.

Aí um dia eu descobri que você tinha sido criança, como eu. Que você tinha nascido da sua mãe, tinha sido um bebê e tinha crescido, e que eu cresceria também. E cresci. E fui descobrindo aos poucos que você não sabia de tudo, e muitas vezes errava. Que eu podia ficar sozinha e me guiar sem você. E que você não era super. Aí eu achei então, que eu deveria impor o que eu pensava e sentia a qualquer custo, mesmo que isso lhe machucasse, e aos outros à minha volta, já que tinha descoberto que, na verdade, nós éramos iguais, humanas.

Depois de um tempo eu me toquei que estava totalmente errada. Você não tinha sido adulta durante toda a sua vida, mas era adulta há mais tempo que eu. Você não sabia de tudo, mas sabia muito mais que eu. E,  além de filha , mulher e esposa, também era mãe, enquanto eu nem tinha deixado de ser adolescente ainda.

Então descobri que você sempre foi super. E que, não importa quantos anos se passem e quantos anos eu tenha, sempre será minha guia.

k

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Independente, caça sua própria comida, mas antes de matá-la brinca com ela, morde, arranha, arranca pedaços. Depois de saciada, ela dorme profundamente. Acorda com afagos, se vira para recebê-los e goza daquela afeição dedicada somente à ela. Ronrona. Então decide que basta de afeição, se espreguiça e se lambe, depois levanta, olha em volta e decide que quer dormir de novo, até que uma fome incontrolável a acorda. Então ela vai caçar sua comida de novo, espreita imóvel e ataca ao menor vacilo da vítima, que sofre um golpe certeiro direto na jugular. Brinca, se alimenta e larga o resto. Seus olhos iluminam a noite que é dela, sua companheira, seu dia. E quando o dia amanhece ela já está dormindo de novo, exausta e jogada, entregue.

k

Encontrei este texto, que escrevi quando tinha quinze anos.

As nuvens estão baixando e cobrindo lentamente o topo da alta montanha onde me encontro, mergulhada em pensamentos e lembranças. O vento frio e cortante e a umidade que tomam conta do lugar me inspiram a dedicar-me exclusivamente aos maus momentos, às dores físicas e do espírito, às limitações, arrependimentos e perdas. As lágrimas escorrem rapidamente como cascatas, violentas, e os soluços antes suaves tornam-se sufocantes e altos. A dor é cada vez maior até que explode num clarão de cólera.

As nuvens estão subindo e descobrindo lentamente o topo da alta montanha onde me encontro em estado de letargia, onde meu corpo lateja e meu rosto se incha, e os olhos não conseguem se abrir, e o ranho se mistura com a baba e as lágrimas. A umidade vai desaparecendo e tudo ao redor se torna mais visível e claro. O céu se enche de buracos azuis e o horizonte aparece de repente. As pessoas más sofrem sentimentos ruins e dores. A mente vai esvaziando e dando lugar a nada, talvez a um começo de satisfação.

As nuvens estão se dissipando e deixando surgir raios de sol amarelos e intensos que mergulham pelo céu e batem no meu corpo. Os olhos se abrem com a claridade e saio do estado de letargia. Minhas faces se coram, sento-me e encontro o horizonte, imenso, na minha frente. Um suave calor vai tomando conta do lugar e das minhas sensações.  O céu se abre e se enche de azul. As pessoas más já morreram, e com elas as dores e o sofrimento. O contentamento e a esperança vão tomando conta da mente e do corpo.

As nuvens estão se movendo rapidamente em direção ao espaço, tornando-se cada vez mais brilhantes e brancas. Vão se despedaçando, e esses pedaços vão voltando às formas originais, cujas asas enormes batem em direção ao paraíso, e cujos rostos refletem dor e sofrimento. Os anjos estão chegando ao paraíso, para lá se livrarem de toda a carga negativa acumulada sobre eles. As pessoas más não morreram, apenas os sentimentos ruins, que agora se tornaram bons.

Os anjos retornam à Terra, transformando-se em nuvens, carregando sentimentos bons para entrega-los às pessoas más que não morreram.

kdolescente

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