Um ser saiu do seu casulo. Saiu daquele ambiente quente e pegajoso que era seu mundo.
Já houve muitos casulos antes. Eles surgem em volta do ser quando o mesmo é afligido pelas agressões externas: Aquelas que rasgam sua pele e deixam sua carne exposta, tornando o ser numa grande chaga purulenta, ninho de parasitas que crescem, devorando o pus e a carne desse ser.

Então o ser forma o casulo e se regenera.

A saída nunca é suave; afinal, depois de um tempo, o ser acostuma-se com o calor do receptáculo que ele mesmo criou. Porém, ela faz-se necessária ao final do ciclo: o casulo torna-se pequeno para o ser.

Logo após sua saída, o ser foi impelido a desbravar o mundo que antes conhecia: Este sofreu algumas alterações, era preciso conhecê-las. E então o ser ocupou-se em explorar o desconhecido. E assim, algum tempo passou.

Um dia, o ser sentiu-se atraído por uma estranha energia. Ele a seguiu e descobriu que ela pertencia a um outro ser, um ente, que percebeu ser fascinante. E esse fascínio ocorreu porque o ser via no ente muita coisa dele mesmo.

O ser descobriu que não só a sua existência que era inconstante: A existência do ente também era.

Às vezes o ente tornava-se maior do que o ser, e às vezes mostrava-se mais frágil; em alguns momentos era denso e completo, e em outros nebuloso e confuso.

Quando o ser e o ente eram iguais, tornavam-se algo muito maior do que eram quando sós; quando o ser era inferior ao ente, este oferecia sua grandiosidade e havia troca; quando o ser era superior ao ente, protegia-o e outra vez havia troca.

A distância entre o ser e o ente tornava-se cada vez menor. Ficou tão pequena que o ser viu que aquilo que era emanado do ente não era emanado do seu interior. Viu que o ente, na verdade, era algo escuro e sem vida. O que era emanado vinha da superfície, era energia dissimulada. Cheirava mal, era algo podre e asqueroso.

Porém o ser já estava tão próximo que não conseguia mais escapar.

O ente envolvera o ser com seus tentáculos. As ventosas sugavam a energia do ser, que jazia abandonado e indefeso. O veneno das ventosas não causava dor ao ser, muito pelo contrário: sentia um prazer delicioso.

Quando acabou de sugar a energia do ser, deixando-o semi-morto, o ente passou a devorar-lhe o corpo. Inicialmente a pele foi sendo retirada aos poucos, expondo a carne nova, brilhante e indefesa; antes de consumir também a carne, o ente depositou nela toda a sua prole: larvas inquietas e famintas, que cresciam rapidamente e ajudavam a desaparecer com a carne do ser.

Suas entranhas saltaram. O ser, totalmente exposto e vulnerável, começava a perceber o que era feito da sua matéria, mas era tarde demais.

Após saciar-se, o ente deixou o que restou do ser e saiu à procura de outra energia e matéria para se alimentar. Sua aparência era horrenda, porém medíocre. Era a soma de tudo o que havia de mais repugnante e diminuto, e ao mesmo tempo em que era diminuto era imenso em sua mediocridade.

Os restos do ser só tinham força para fazer uma coisa: Construir mais um casulo para sua auto-regeneração.

Os medíocres muitas vezes se vestem de grandeza. E eles realmente podem ser grandes, poderosos e fascinantes em alguns aspectos… Mas sempre serão medíocres: Simplesmente iguais a tantos outros medíocres que parasitam os seres que possuem alguma luz.

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