O desejo por momentos de descontração urra no íntimo do seu ser. Dias e dias fazendo horas extras, trabalho e mais trabalho encalacrado na mente, sem tempo nem forças para outras ideias, ideais, pessoas, nada.

Então você sai de casa feliz, contente e cantarolante, porque durante as próximas horas estará entre amigos e colegas e desconhecidos, todos com o mesmo objetivo que é também o seu: Esquecer os dias e noites e madrugadas de labuta intensa.

Você chega ao local, e ainda sóbrio não faz o social com as pessoas devidamente, por ser tímido. Leva uma pequena bronca. Avista um copo com qualquer coisa alcoólica dentro, o primeiro de muitos, e toma posse dele. Depois de um tempo tudo fica mais leve, mais permissivo. Abraços, beijinhos nos amigos (inicialmente apenas nos amigos), dancinhas, palavrões e muitas risadas de doer a barriga. E então você decide que ainda não está bom. Não sei por qual razão estranha a gente não se contenta em apenas sair um pouco da realidade.

Não. A gente quer ir pra outra dimensão.

Só que a dimensão, no caso, é incerta e imprevisível. E começam as merdas. Ai caralho.Você, pessoa de bem, está falando, falando, fazendo, enquanto seu cérebro lá loooonge pede pra parar, mas aí já é tarde: O estrago está sendo feitooooooooo!!!!! OOEE LOMBARDI!!!
QUE COMECEM OS JOGOS ÉBRIOS HUMORÍSTICOS DEPRAVADOS INOMINÁVEIS!
Gente cambaleando, sorriso besta na cara e olhos semicerrados, brindando com o chefe a seguinte frase: MEU CUUUU!!! Sem controle, fotos semi-pornográficas, sambando quando não se sabe sambar e se odeia pagode, piscando pro vocalista e depois finalizando-o, descendo e subindo freneticamente pra fumar 1,2,3,4,10 cigarros, flertando com homens comprometidos, pulando e gritando como se não houvesse amanhã, rasgando a tanga na pista ao som de música eletrônica com desconhecidos que lhe oferecem bebidas e perguntam seu nome já com a mão na sua cintura e a boca encostada na sua, risadas histéricas, brincadeiras de mau gosto, xavecos furados em colegas de trabalho porque naquele momento não existe futuro (isto é, segunda-feira), procurando amigas estragadas pela balada com medo de que percam a integridade física, cabelos desgrenhados. De repente você se lembra de quem é e tenta puxar um papo-cabeça só pra mostrar que não sofre de insanidade temporária e tem dignidade, mas é tarde demais: Termina em merda. Tudo vai ficando meio nebuloso, flutuante e psicodélico. Ui, que delícia.

Você sente que está acordando. Toma um susto ao verificar que se encontra em sua cama, mas que não tem a mínima ideia de como foi parar lá. As lembranças da noite surgem em sua mente e você começa a dar muitas risadas sozinho, até lembrar das merdas. Aí vai murchando, murchando, dizendo “ai caralho” de 5 em 5 minutos, imaginado o que irão dizer na segunda-feira, imaginando todo um jeito de entrar na empresa sem ser visto e imediatamente ficando frustrado porque esta alternativa é fisicamente impossível. Manda email para os amigos perguntando o que fez e como estava, e as respostas são variadas, desde: “Nossa, você foi?”, “Cara, ninguém estava te reconhecendo”, “Não lembro”, “Eu te amooooo você é muuuuuito engraçadaaaaa meeeeuuuuuuu” (esta última de alguém cujos efeitos do álcool demoram mais a passar – ou então porque é doido mesmo).

Resta então aproveitar o dia suavemente. Afinal, seu objetivo foi cumprido. Só mesmo uma viagem até outra dimensão, para os confins do Universo Mental conhecido, para fazer a gente esquecer da pressão, das horas extras, do trabalho trabalho trabalho. Agora você terá outras coisas com o que preencher a mente, olha que tudo. E, caso sinta-se culpado por serem coisas vazias e fúteis, assim que a ressaca passar leia Sartre, Nietzsche, Kafka, algo que o faça sentir-se mais como um ser humano de inteligência razoável e bom senso.

Não se preocupe, amiguinho, se você subiu na mesa pra dançar; se você pegou a pessoa mais feia da balada; se você falou merdas pra várias pessoas; se você xavecou a mulher do chefe. Daqui a alguns meses você vai lembrar disso tudo e RIIIIIIIIRRRRRRR.

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