Encontrei este texto, que escrevi quando tinha quinze anos.

As nuvens estão baixando e cobrindo lentamente o topo da alta montanha onde me encontro, mergulhada em pensamentos e lembranças. O vento frio e cortante e a umidade que tomam conta do lugar me inspiram a dedicar-me exclusivamente aos maus momentos, às dores físicas e do espírito, às limitações, arrependimentos e perdas. As lágrimas escorrem rapidamente como cascatas, violentas, e os soluços antes suaves tornam-se sufocantes e altos. A dor é cada vez maior até que explode num clarão de cólera.

As nuvens estão subindo e descobrindo lentamente o topo da alta montanha onde me encontro em estado de letargia, onde meu corpo lateja e meu rosto se incha, e os olhos não conseguem se abrir, e o ranho se mistura com a baba e as lágrimas. A umidade vai desaparecendo e tudo ao redor se torna mais visível e claro. O céu se enche de buracos azuis e o horizonte aparece de repente. As pessoas más sofrem sentimentos ruins e dores. A mente vai esvaziando e dando lugar a nada, talvez a um começo de satisfação.

As nuvens estão se dissipando e deixando surgir raios de sol amarelos e intensos que mergulham pelo céu e batem no meu corpo. Os olhos se abrem com a claridade e saio do estado de letargia. Minhas faces se coram, sento-me e encontro o horizonte, imenso, na minha frente. Um suave calor vai tomando conta do lugar e das minhas sensações.  O céu se abre e se enche de azul. As pessoas más já morreram, e com elas as dores e o sofrimento. O contentamento e a esperança vão tomando conta da mente e do corpo.

As nuvens estão se movendo rapidamente em direção ao espaço, tornando-se cada vez mais brilhantes e brancas. Vão se despedaçando, e esses pedaços vão voltando às formas originais, cujas asas enormes batem em direção ao paraíso, e cujos rostos refletem dor e sofrimento. Os anjos estão chegando ao paraíso, para lá se livrarem de toda a carga negativa acumulada sobre eles. As pessoas más não morreram, apenas os sentimentos ruins, que agora se tornaram bons.

Os anjos retornam à Terra, transformando-se em nuvens, carregando sentimentos bons para entrega-los às pessoas más que não morreram.

kdolescente

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