O frio chegou, meu frio. E com ele chega todo o cinza, toda a melancolia, a saudade, meu lado obscuro, gélido, romântico, triste. Aquela dorzinha que teima em fazer chorar. Aquelas lágrimas que insistem em aparecer. Pensamentos, devaneios, sonhos congelados, lembranças, sentimentos que ardem e esquentam o corpo trêmulo.

É hora de fazer o lado negro vir à tona, as noites são mais longas. Lado negro? Sim, só se encontra o verdadeiro equilíbrio quando conseguimos lidar e consequentemente neutralizar as sombras que moram dentro da gente. Afinal, como o dia e a noite, a luz e as trevas, o verão e o inverno, nosso lado claro e nosso lado escuro existem e se complementam. É hora de introspecção, de recolhimento, de tocar em velhas feridas para termos certeza de que realmente cicatrizaram… e se não cicatrizaram, curá-las de uma vez. O tempo lá fora nos convida à isso, e se nós nos negarmos esse auto-exame, sofremos mais. O inverno serve para isso, para abrirmos o peito e descobrirmos o que ainda sangra.

Talvez o que ainda sangra nos faça sentir o calor do sangue que jorra do peito, e achamos que esse calor nos protege do frio, quando na verdade ele pode até causar essa sensação boa, mas também nos esvazia, nos mortifica, nos faz morrer aos poucos. A cicatrização é necessária, mesmo que sintamos um pouco do frio angustiante que novas perspectivas causem. Sempre temos medo frente ao novo.

O que deve realmente nos esquentar e nos manter vivos e esperançosos no inverno é o nosso próprio calor, nossa paixão pela vida, nossa alegria ainda que um pouco apagada, nossos sentimentos de amor pelos entes queridos. Ficarmos mais próximos física e espiritualmente das pessoas que amamos, para que o frio não congele nossos corpos e nossos corações.

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