Uma amiga me disse certa vez, angustiada, que está ficando muito “dura” para a sua pouca idade. O fato é que ela, além da personalidade, teve e tem acesso a uma considerável carga de conhecimento, fora a bagagem cultural, etc etc etc. Por isso, não tem mais paciência com pessoas xucras, ou pesudo-cultas, dessas que acham que são bem informadas porque lêem a Veja e assistem a telejornais. Essa intolerância a incomoda muito.

Há algum tempo, em outra conversa, eu disse a ela que o lugar onde vivemos não nos estimula mais. Não há nada mais para aprender aqui. Temos que nos deslocar para outros lugares, bairros, regiões se quisermos ver algo realmente interessante. Nossa, como isso me frustra!!!

Por que conhecimento gera angústia? Bom, porque vamos descobrindo os erros do mundo, as hipocrisias, os lobos em peles de cordeiros. Porém, não possuímos poder suficiente para mudar as coisas ao nosso redor, já que são como são há décadas, séculos, milênios. O que fazemos, então? Procuramos pessoas para descarregarmos essa melancolia. Mas fazer isso não nos livra totalmente dela.

Quando eu fazia Jornalismo, fui questionada sobre com o que gostaria de trabalhar. Pensei: “Moda. Fofocas de artistas”. Sabia que não aguentaria política, economia e afins. É muita podridão. Respondi: “Se terminar a faculdade, vou me alienar”. Claro que, mesmo assim, seria uma alienação leve, digamos “profissional”.

Convivo com pessoas materialistas, apegadas à convenções da sociedade, tabus religiosos. Não questionam. Assinam CARAS. Conversam sobre o casamento, filhos, casa, carros, roupas. Adoram enfiar o nariz na vida dos outros. E raramente ficam tristes. Quando ficam, não dura mais que o tempo que as lágrimas levam para rolar pelo rosto e pingar no chão. Na maioria das vezes estão com aquele sorriso grudado na cara, parecendo bonecos. Qualquer coisinha superficial os faz felizes. Me lembram as pessoas daquele clipe do Soundgarden, da música “Black Hole Sun”.

Me pergunto se a ignorância não é realmente uma bênção.

Acho que em certos aspectos é sim. O problema é que ela nunca está sozinha. O preconceito, o egocentrismo, a hipocrisia e outras condutas de igual nível quase sempre são características do alienado. À noite, ele recosta sua cabeça, satisfeito, no travesseiro, feliz por mais um dia repleto de coisas legais: Os remédios para emagrecer comprados, o carro novo que chegou e que já está na garagem, os filhos fazendo faculdades de quinta e trabalhando à base de q.i., a ida à igreja/templo seguida de fofocas maldosas no portão de casa com os amigos (para compensar a péssima vida doméstica), as bebedeiras de final de semana seguidas de sermões anti-drogas para os filhos, as puladas de cerca.

E aí eu digo à minha amiga que prefiro uma vida inteira de melancolia a isso.

“(…)In disguise as no one knows / Hides the face / Lies the snake / The sun in my disgrace(…)”

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